Uma Corda, Um Cordel

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QUARENTENA MARVADA

QUARENTENA MARVADA

Autor: Francisco Silva Júnior

@juniordocordel

Cumpade me diga logo:

- Quando é que vai acabar?

Eu já estou preocupado

No que isso pode dar.

Está tudo ao avesso

Não sei se vou aguentar.

Quero fazer um relato

Veja a minha situação.

Sou um caboco da roça

Do carrasco, do sertão.

Devido essa quarentena

Eu mudei de posição.

Todo dia bem cedim

Bem antes do sol nascer

Já começava o preparo

Pra minha lida fazer.

Preparava o meu café

Pra com cuscuz eu comer.

Pegava a minha enxada

Batia, batia até afiar.

Ajeitava meu bornal

Com os troço pra levar.

A farinha e rapadura

Pra minha fome matar.

Seguia num passo firme

Até chegar no roçado.

Pedia a Deus proteção

Perdão por cada pecado.

Fosse na chuva ou sol

Tava sempre preparado.

Ainda sobrava tempo

Para das vacas cuidar.

Botar comida nos tachos

Para depois ordenhar.

Ainda sobrava força

Para o queijo cozinhar.

Mas depois desse corona

Minha vida deu um nó!

Eu te digo meu compadre,

É uma confusão só!

Perdi minha identidade

Meu passado virou pó.

Em casa minha rotina

Foi deixada para trás.

A minha lida do campo

Eu Já nem me lembro mais

O negócio agora é outro

Tá complicado rapaz!

Lavo louça todo dia

Areando com Bombril!

A mulher botando quente

Nas ordens a mais de mil.

Valei-me minha Virgem Santa!

Dê um jeito nesse Brasil.

Mal acorda ela me cobra

Um cafezinho na cama

Bruaca, bolo, tapioca,

Na Tv o seu programa,

Se num tiver do seu jeito

A danada ainda reclama.

Nisso passa a dar ordens

Pra rotina começar.

Varrer a casa todinha

Depois o pano passar.

Tirar poeira dos moveis

E botar tudo no lugar.

Pior é que vez ou outra

Ela me faz remexer

Tiro tudo do lugar

Bota ali pra mode eu ver!

Depois de um bota e tira

Manda tudo desfazer.

Não esqueça do banheiro

Bote ácido pra limpar!

Nas parede o azulejo

É pra esponja passar.

Compadre aguento não!

Essa vida é de lascar.

Termino aliviado

Suspiro de gratidão.

De repente chega ela

Com a vassoura na mão:

- Varre logo o terreiro!

Ponha no sol o colchão.

Volto alegre satisfeito

Por cumprir minha missão:

- Já varri todo o terreiro!

Ficou somente o chão.

Agora vou descansar

No fundo do meu colchão.

Com um sorriso no canto

E os olhos sem concordar

Fala mansa e aponta:

- Pegue lenha pra rachar

Estamos só começando

Num deu nem pra esquentar.

Tem uma trouxa de roupa

E o almoço pra fazer

Buscar água na cacimba

Antes de anoitecer.

Depois que tudo for feito

É que eu libero você.

Eita que vírus danado!

Esse veio pra matar.

Se não morrer da doença

Dos sintomas que ele dá

Morro dessa quarentena

Pois a muié num tem pena

Bota em noís é pra quebrar.