Uma Corda, Um Cordel

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A história do carroceiro que se tornou professor

por Silva Júnior

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Cidade de Jaguaribe,

O ano sessenta e seis!

A historia de uma família

Iria mudar de uma vez!

Um dia como outro qualquer,

Onde uma jovem mulher

Uma linda escolha fez!

Naquele ano chegava,

Naquela bela cidade,

Um grupo de retirantes.

Trazendo na mala a vontade

De construir uma nova era,

Vencer a fome e a miséria,

O sonho de liberdade!

Trazia na sua bagagem,

A esperança de um dia melhor!

A garra de um povo sofrido

Que longe do luxo e glamour,

Buscava na sua essência,

Mesmo com toda carência,

Superar os momentos de dor

Entre tantos que ali estavam,

Um casal se destacou.

Retraídos num canto, sem jeito,

Protegendo-se do sol e calor!

Pela condição que mostrava!

A mulher buchuda estava!

E sofrendo com muita dor!

A dor da insegurança!

Do que ainda estava por vir!

Tudo era incerteza,

Só Deus podia intervir!

E diante daquele estado,

Tudo que lhe era de agrado,

Tinha que acontecer, justo ali.

Nestes momentos sublimes,

Onde explicação não há,

O universo conspira!

E justo naquele lugar,

Passava ali uma mulher,

Ana Elias, seu nome de fé!

Parou, e pôs a conversar!

Ao ver aquela família

Sem abrigo, sem um lar

Ficou pensando no bebê

Que logo iria chegar!

E apesar do pouco que tinha

Agiu como uma rainha

Com decência, maor e pesar!

Descobriu que a gestação

Estava no oitavo mês

Ficou pensando consigo

Parir naquela escassez!

E descobriu mais ainda

Que aquela mãe decidira

Doar o bebe de vez!

Naquele instante sublime

Nos olhos uma lágrima correu!

Com sentimento materno

E a garra que Deus lhe deu

Não pensou em responder

E disse com todo prazer

Que aquele filho era seu!

Ao ouvir daquela família

Histórias de luta e privações

Juntou o pouco que tinha

E ainda com doações

Cuidou com todo carinho

E conseguiu por um tempo

Aliviar suas tensões!

Ana Elias não podia

Do ventre um filho ter!

Estéril para sempre estava!

Mas não deixou se abater!

Estava chegando a hora

O que importava era o agora

E a vida que iria nascer!

O sonho de um dia ser mãe

Nunca fora abandonado

Queria ter os seus filhos

O que aconteceu é passado!

Fosse mulher ou um homenzinho

Cuidar, dar colo, carinho!

Mesmo que fosse adotado!

Aos quatorze dias exatos

Em abril de sessenta e seis

O filho tão esperado

Surgiu ao mundo de vez!

Nasceu ali uma nova história

Cheia de luz e de glória

Com honestidade e honradez!

No momento que deu luz!

O menino a Ana entregou!

Acariciou deu a benção

Boa sorte o desejou!

Sem olhar para os seus atos

Organizou seus farrapos

E para a estrada voltou!

A partir daquele dia

Uma nova família ganhou

Recebeu nome e sobrenome

Júnior, foi assim que o chamou!

Um lar humilde e singelo

E para aquele menino magrelo

Não lhe faltou mais amor!

Francisco Silva o pai,

Caboclo trabalhador!

Chico Preto o apelido!

Vaqueiro bom com louvor!

Junto com sua mulher Ana

Tomou um gole de cana

Quando o menino chegou!

Ano após ano passava

Não foi fácil, poder crer!

Trabalhando de sol a sol

Sem luxo, mal pra comer!

Colhendo quando chovia

Momentos bons e agonia

Tiveram chances de ver!

Ana Elias, mulher guerreira!

Não desanimava nunca!

LAvava, passava pra fora

Vendia bolo na banca

E ainda sobrava tempo!

Com todo aquele tormento

Nunca faltou confiança!

Logo que chegou a idade

O menino estudar, mandou!

E mesmo com dificuldade

Nenhum momento recuou!

Foi alfabetizado no início

Por Dona Iracília e Salete

Filha de Dona Nanô

Estudou em escola pública

Também em particular!

Carloto e Cornélio as primeiras,

Beviláqua para encerrar!

Mas sempre com uma meta

De forma objetiva e direta

Um dia aos pais ajudar!

Sofreu racismo, preconceito!

Tudo que possam imaginar!

Por ser filho de pais negros

Este "crime" teve que pagar

Mas não baixou a cabeça

Ouviu de sua mãe: Não esmoreça!

Deus vai lhe recompensar!

Para ajudar aos seus pais

Logo teve que trabalhar

E sem nenhuma profissão

Foi cuidar do gado e plantar

O pai todo vaidoso

Falava todo orgulhoso

Esse teve a quem puxar!

Junto com o sol levantava

Tinha o leite para entregar

Pegar a velha burra Calçada

Preparar tudo e arriar

Todo dia essa rotina

Chapéu na cabeça, botina

E na carroça trabalhar!

Recolher o leite no curral

Passar na Cila e deixar

A maior produção tirada

O restante a entregar

De litro em litro nos lares

De cidadãos exemplares

Pro seu café completar!

Cumpria fielmente sua tarefa

Sempre disposto e contente

A tarde ia pra escola

Na chuva ou no sol quente

Cansado, mas confiante

Que o filho do retirante

Um dia ia ser gente!

Trabalhando na carroça

Por um ano assim ficou

Quando surgiu uma chance

Ele logo a agarrou!

Buscou capacitação

E com determinação

Datilografia cursou

Foi trabalhar na Ematerce

Os mandados, ali fazia!

Não demorou muito tempo

Pela sua primazia

Os colegas perceberam

Que aquele ex carroceiro

Outros talentos, possuía!

E logo em outros setores

Começou à atuar

Já tinha mais confiança

E passou a auxiliar!

Proativo, comprometido

Por todos era querido!

Cumpriu sua missão por lá!

Concluiu o curso técnico

Em agropecuária, se formou

Contratado pela Plantel

Um novo rumo tomou

Foi atuar na sua área

Com competência e garra

Mais um degrau conquistou!

O que ganhava não dava

Pros sonhos realizar!

Faculdade era difícil

E o sonho de se formar

Ficou de lado, esquecido!

O curso sempre escolhido

Só tinha na capitar!

No ano de oitenta e nove

Um novo rumo tomou

Casou, construiu família

Novo trabalho arrumou

Deixou prá trás seu torrão

Mostrando superação!

De novo, recomeçou!

Trabalhou em construtora

Também como taxista

E quando a coisa apertava

Permanecia otimista

Foi ser camelô na praça!

Levou no peito e na raça

Sendo sempre o protagonista!

Nunca se conformou com pouco!

Sempre buscou algo a mais!

Percebeu que energia despediçada

Com o que era pouco demais!

Era a mesma despendida

E devia ser comprometida

Por causas essenciais!

Foi nesta busca incessante

Que uma nova porta foi aberta

Ao ler um anúncio de emprego

E ver uma chance concreta

De pronto logo aceitou

Apertou a mão do Doutor

Foi tudo na hora certa!

Serra Grande é o destino!

São Benedito a cidade!

Distante, longe de tudo

Uma grande oportunidade!

Empresa multinacional

Com confiança total

Encarou a realidade!

Foram anos de conquistas

Também de decepções

O que era bom aplaudia

Nada de lamentações

Esforço reconhecido

Não demorou, foi promovido!

Pelas suas boas ações

Não demorou a surgir

Novas oportunidades!

E numa escola local

Assumiu com austeridade

O cargo de direção

E na área de educação

Mostrou sua capacidade!

Foi a primeira experiência

Como educador, que teve!

Trabalhando o dia inteiro

Firme e forte se manteve!

Não se dava por vencido

Foi também enaltecido

Nas conquistas que obteve!

Descobriu na educação

Uma paixão escondida

E logo assim decidiu

Dar a vida, nova investida

Com força, fé e alegria

Formou-se em pedagogia!

E mais portas abriram-se na vida

Não tinha do que reclamar!

Família, amigos(as), conquistas

Tudo acontecia a tempo,

Planejamento, ações realistas

E cada ano que passava

Mais vitórias conquistava

Coroando suas ações otimistas!

De repente tudo muda!

E sem um motivo aparente

Foi mandado embora

Sentiu, ficou descontente

Foram anos de história

E uma nova trajetória

Começa a nascer de repente

Nas palavras da sua mãe

Uma lembrança sempre ficou

Se planta o bem, colhe o bem!

Aos bons Deus nunca desamparou!

E o ensinamento aprendido

Foi muito bem compreendido

E a bons caminhos, o levou!

Por ter muita expeciência

No campo, na agricultura

Foi convidado a gerente

De uma grande estrutura

Foi pioneiro no Estado

Cumpriu o que foi planejado

E nasceu a floricultura!

Cearosa o seu nome!

Destaque em todo lugar!

Sertão produzinho rosas

Não dava para acreditar!

Jornal, revista e TV

O mundo então pode ver

Um paradigma quebrar!

Mais uma vez o destino

Interferiu, a mão colocou

Pra cuidar de sua mãe

A quem tanto o amou

Largou tudo, a casa volta

E sem nenhuma revolta

Do zero recomeçou!

Realizou concurso e passou

Professor do Ensino Interal

Feliz, realizado na vida

Amor incondicional

Pela missão de ensinar

E os sonhos realizar

Na escola profissional!

Poeta Sinó sua casa!

Professor sua missão!

Agradecer todo dia

Por cada realização!

E se ainda não acredita

Não seja tão troglodita!

Tome uma decisão!

Estude, estude, estude!

É o conselho deste irmão!

Não desvie o seu foco

Tenha isso como missão

Foi assim que este roceiro

Que um dia foi carroceiro

Venceu, através a educação!